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Mais de 780 milhões de pessoas no mundo, 11% da população, não têm acesso à água potável e 2,5 bilhões carecem de serviços de saneamento. Os números são da Organização das Nações Unidas (ONU), que estima que a demanda global por água pode ultrapassar em 44% os recursos disponíveis já em 2050, enquanto a necessidade de energia poderá aumentar em 50% de hoje até essa data.

Em Goiás, 55% da população não possui atendimento de esgoto, são 3,3 milhões de pessoas, de acordo com a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago). E o percentual de desperdício ao longo do processo de captação, tratamento e distribuição, em 2013, chegou a 28,66% do total de água captada. Insumo fundamental para a atividade industrial, a água (qualidade e quantidade) influencia diretamente na competitividade do setor – que responde por 19% do consumo total de recursos hídricos no Estado, sendo Goiás responsável por 8,09% do consumo nacional total. Nesse contexto, a Fieg realizou o workshop Cenário Mundial do Uso da Água como Fator de Desenvolvimento Sustentável, com participação do presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga (ao lado), maior autoridade brasileira na questão dos recursos hídricos e do abastecimento de água. Ele é Ph.D. pela Universidade de Stanford (EUA) e responsável pelos fóruns da ONU sobre a água nas reuniões de Haia e Kyoto. O evento ocorreu no dia 14 de abril, na Casa da Indústria, em Goiânia, e trouxe duas discussões principais: segurança hídrica global e a água como fator competitivo na economia goiana. Além do presidente do Conselho Mundial da Água, participaram: o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Olavo Machado Júnior; o presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia, Flávio Neiva; e o gerente geral de Sustentabilidade na Votorantim Metais, Ricardo Barbosa; além de secretários de estado. Impactos na competitividade – Problemas com o fornecimento de água já aumentam os custos e afetam as decisões de investimento de empresas, além de impedirem o aumento da produção agropecuária. Empreendimentos deixam de ser instalados e agricultores são impedidos de instalar pivôs de irrigação para elevar sua produtividade agrícola. O que antes era só uma ameaça, já é algo real, que afeta a competitividade e pode barrar o aumento da produção. O alerta foi feito por Benedito Braga, durante o workshop. Segundo Braga, a água já é um recurso escasso que começa a ser conhecido como petróleo do século 21, diante do aumento da população e da atividade produtiva, e redução das reservas subterrâneas. “O aumento da renda significa mais consumo e o problema da água é mais urgente que o da energia”, afirmou Braga. Ele lembra que a discussão sobre água sempre esteve entre as preocupações da classe política, mas as ações demoraram demais. Com um clima anômalo, isso ficou bem mais urgente e essa classe política começa a entender que água é questão vital. O Nordeste já tinha essa consciência por sentir os efeitos da seca há séculos. Mas o problema se alastrou pelo País. “Nunca se viu uma situação de seca dessa envergadura. Há risco real de impactos econômicos e de saúde pública. Sem água e saneamento, as consequências são sérias.” Braga alerta que a produção agrícola e industrial será cada vez mais afetada, porque a água está nesses processos. Com escassez, há riscos de queda no volume e na qualidade da produção. Para ele, a capacidade de gerenciar incertezas em relação aos riscos de escassez e cheias é essencial. A irrigação é o primeiro setor no ranking de uso consuntivo da água (retirada direto da fonte), com 66%, seguida pela indústria, com 19%. Mas, de acordo com o secretário de Agricultura do Estado, Antônio Flávio de Lima, Goiás só utiliza 5% de seu potencial de irrigação. Em Cristalina, cidade com maior área irrigada da América Latina, com 627 pivôs (50.722 hectares), que produz 40 culturas diferentes, já existem conflitos relacionados ao uso da água. O superintendente de Irrigação da Secretaria de Agricultura do Estado, Alécio Maróstica, lembra que a cidade foi surpreendida com a instalação de uma hidrelétrica no Rio São Marcos, que obteve a outorga para o uso da água, sem uma reunião com os agricultores. “Quando vimos, não podiam autorizar mais irrigantes”, destaca. Para ele, é preciso uma nova modulagem de irrigação, onde o produtor investirá em culturas que deem mais segurança, utilizando menos água. “Já temos testes mostrando que irrigar soja, milho e capim para engorda é um excelente negócio”. É a chamada irrigação complementar e suplementar, que aproveita também o potencial pluviométrico, de acordo com cada época do ano e de plantio de cada lavoura. Com isso, a expectativa é incrementar a área irrigada e o volume de produção. O presidente da Fieg, Pedro Alves de Oliveira, ressalta que, quando uma empresa está escolhendo um local para se instalar, sempre avalia a viabilidade do fornecimento de água na região e isso afeta sua decisão. Daí, ele alerta para a necessidade de conscientizar a população sobre a importância da preservação e uso comedido. “As próprias indústrias também precisam reciclar seus resíduos”. Infraestrutura – O presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, diz que é preciso mecanismos de resistência aos problemas climáticos, como a construção de reservatórios e barragens para armazenar a água. “Quando as chuvas vierem, nós enchemos. Quando ela faltar, utilizamos essa reserva”, destaca. Porém, essa construção envolve toda uma discussão em torno da parte ambiental. Para Benedito, é preciso compatibilizar as coisas. “Se não nos conscientizarmos da necessidade de infraestrutura, a situação ficará absolutamente inviável.” Benedito Braga alertou para a necessidade de instituições públicas de gestão de recursos hídricos sólidas, envolvimento dos usuários nos processos de gestão, planejamento de curto, médio e longo prazo à nível de bacia hidrográfica, sistema de outorga e fiscalização do uso, além de instrumentos econômicos de gestão, como a cobrança de poluidores e usuários. “A gestão da água é uma atividade que deve ser tratada sob o ponto de vista de política pública.” Visão da indústria – O setor industrial destaca como desafio persistente, quando o assunto é gestão dos recursos hídricos, a necessidade de superação dos déficits de saneamento básico. Causa principal do comprometimento da qualidade dos corpos hídricos do País, a falta de saneamento tem relação direta com a saúde da população e com a conservação dos ecossistemas. No Estado de Goiás 55% da população não possui atendimento de esgoto e 6,4% não tem água encanada – dados da Saneago, referentes a 2013. “A área de saneamento básico precisa resolver seus problemas de gestão para reduzir custos e aumentar a eficiência, atraindo assim o investimento essencial para a universalização do serviço”, afirma o presidente da Fieg. O aumento das demandas, das situações de escassez e da concorrência por água já reflete nos custos das empresas e em algumas opções estratégicas de investimentos. Alguns dos principais setores industriais goianos – de alimentos e bebidas, farmoquímico e mineração – são os que mais demandam água no processo produtivo. À perda física de água ao longo do processo de captação, tratamento e distribuição soma-se a perda comercial, causada por problemas de medição e de gastos de energia. Existem estimativas de que pelo menos 45% da água distribuída no Brasil se perde ao longo trajeto entra a fonte de captação e o consumidor final. Em 2013, no Estado de Goiás, essas perdas foram da ordem de 28,66% do total captado, de acordo com a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago). Cobrança pelo uso da água – O segmento industrial reconhece a legitimidade da cobrança pelo uso da água das bacias hidrográficas, que caminha para a consolidação no Estado, mas se preocupa com a clareza dos critérios, com o equilíbrio na cobrança e com os valores que serão estabelecidos. “Quando se fala em cobrança pelo uso da água, algumas questões são primordiais. O Estado precisa eliminar desperdícios e intensificar o tratamento de efluentes, por exemplo”, afirma o presidente da Fieg, Pedro Alves de Oliveira. Instituída pela Política Nacional de Recursos Hídricos, essa cobrança visa reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor – a cobrança em rios de domínio da União somente se inicia após a aprovação pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos dos mecanismos e valores de cobrança propostos pelos Comitês das Bacias Hidrográficas. Além disso, busca incentivar a racionalização de seu uso e obter recursos para o financiamento dos programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos. No entanto, algumas questões afligem a indústria, como por exemplo, o fato dos esgotos domésticos continuarem a ser jogados, pelo município, in natura nos leitos dos rios; a continuidade do desmatamento das matas ciliares; e o que fazer em relação às atividades de caráter difuso, como o garimpo e o arraste pela chuva dos agrotóxicos usados na agricultura que acarretam efeitos altamente nocivos sobre a qualidade das águas e sobre a saúde da população; entre outros.



Assessoria de Imprensa da Fieg

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