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Entre assíduos usuários das aeronaves e neófitos, o EL PAÍS testou o UberCOPTER em São Paulo

A ventania e o barulho provocados pelo movimento da hélice não impediam que um grupo de quatro jovens continuasse tentando tirar a selfie perfeita no heliponto localizado no topo de um prédio de 26 andares, em uma das zonas mais nobres da cidade de São Paulo. Era a primeira vez que os quatro analistas de sistema subiam em um helicóptero. A viagem feita no fim da manhã de uma segunda-feira ensolarada foi bem curta e durou cerca de 3 minutos. Eles saíram de um edifício na região da Berrini, perto do local onde trabalham, e voaram até o Hotel Blue Tree Faria Lima, no Itaim Bibi. Um caminho que, de carro, seria de 4 km e poderia demorar mais de 20 minutos dependendo do trânsito caótico da cidade. O sorriso estampado no rosto dos quatro naquela foto tinha menos a ver com a agilidade do trajeto do que com a oportunidade barata que eles conseguiram: pagaram pela experiência um total de 145 reais, sendo que, em média, só a taxa de pouso em um heliponto pode chegar a 500 reais. "Sobrevoar São Paulo foi incrível. No final, cada um gastou só 36 reais para vir voando almoçar aqui no Itaim", contava sorrindo Bruno Golveia.


O segredo por trás da façanha de uma viagem de luxo para um simples almoço na hora do trabalho - com preço mais acessível para a classe média alta- é o novo serviço do aplicativo Uber, que passou a operar também nos céus. Desde o mês passado, a plataforma começou a oferecer, na capital paulista, o serviço de viagens de helicóptero sob demanda, aplicando valores abaixo do mercado. O projeto começou em 13 de junho, em parceria com a Airbus, ainda está em fase piloto e deve terminar já nesta semana, quando completará um mês. A cidade, a campeã mundial em helicópteros registrados, foi a primeira do mundo a oferecer, por tantos dias, a opção doUberCOPTER, que começou a aparecer no aplicativo ao lado das já existentes UberX e UberBlack.
Os jovens felizes do almoço do Itaim não estavam sós em sua estreia. Naquela mesma segunda-feira, eu também andei de helicóptero pela primeira vez para testar o serviço e suas potencialidades em São Paulo. Eram 10h34 quando eu e o repórter fotográfico Victor Moriyama pedimos pelo aplicativo um helicóptero. Estávamos na Av. Faria Lima e a ideia era ir rumo ao bairro Morumbi. Ao clicar na opção do UberCOPTER, fui redirecionada para um site para preencher alguns dados como CPF, telefone e peso das bagagens. A estimativa de preço do voo era de 176 reais (88 para cada assento, já que a cobrança é individual), e o tempo previsto para chegar ao Morumbi de 30 minutos. Em seguida, recebi uma ligação de uma funcionária da Uber para confirmar o trajeto e o nome dos passageiros. Fui avisada que, em poucos minutos, um motorista do UberBLACK (serviço de carro de luxo) passaria para nos buscar e levar até o heliponto do hotel Blue Tree Itaim, relativamente perto de onde estávamos. 
A disponibilidade de helicópteros e, especialmente, de helipontos que façam parte do programa-piloto é um dos limitadores do serviço, já de entrada. O Blue Tree Itaim é um dos cinco helipontos de São Paulo que, ao lado de mais quatro aeroportos, são os únicos pontos de partida e chegada do UberCOPTER na cidade  - os outros são Sheraton WTC, Aeroporto de Viracopos (Campinas), Hangar ABC, Hotel Transamérica, Aeroporto de Guarulhos, Helicentro Morumbi, Aeroporto de Congonhas e Aeroporto Campo de Marte. Além de a tarifa ser cobrada individualmente, se for preciso uma viagem de carro até o heliponto de partida, o custo adicional do valor de uma corrida do UberBlack. Os preços também variam de acordo com trajeto e a demanda.


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A voo da região do Itaim Bibi até o Morumbi foi estimado em 176 reais. VICTOR MORIYAMA


Às 10h39 já estávamos dentro do UberBlack, quando recebi novamente uma ligação para confirmar o peso dos passageiros, uma vez que a empresa precisava avaliar qual aeronave era mais indicada para a nossa viagem. Dez minutos depois, chegamos ao Blue Tree. Fomos recebidos no saguão por um funcionário do hotel e encaminhados para uma sala de espera no último andar do edifício. Lá, outros dois passageiros também aguardavam o horário de embarque. Um deles era Steven Holanda, estudante de aviação civil, que viajaria pela primeira vez em um helicóptero. O destino era o Campo de Marte, na zona Norte da capital, onde pretendia conhecer o Aeroclube de São Paulo. Ele contou que havia pedido o helicóptero há pouco menos de 15 minutos, mas mal pôde continuar a conversa, pois foi chamado para o embarque.

O seu helicóptero chegará em 40 minutos….



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Estudante Steven Holanda pede uma foto antes de embarcar rumo ao Campo de Marte. VICTOR MORIYAMA


Eu não tive a mesma sorte. Por volta das 11h, a funcionária da Uber voltou a ligar para informar que o meu voo estava autorizado somente para as 11h40 e para confirmar se eu poderia viajar naquele horário. Disse que sim, mas perguntei se o tempo de espera era sempre de quase 50 minutos ou se estávamos com algum tipo de trânsito aéreo. Ela explicou que realmente a segunda-feira estava mais movimentada que o normal e que, geralmente, a demora não passava de meia hora. Ao desligar, recebi uma mensagem de texto avisando que viajaria em um helicóptero da companhia AirJet e que a duração de voo seria de 3 minutos.
O outro passageiro que dividia a sala de espera estava bem mais familiarizado com a experiência de voar de helicóptero do que eu. Cliente assíduo do heliponto, o empresário, fundador de uma das maiores lojas de varejo de móveis e eletrodomésticos do país, esperava não o UberCOPTER, mas sim o seu helicóptero privado. Ele preferiu não dar entrevista ao EL PAÍS, mas deve ter percebido, no último mês, uma movimentação diferente naquela sala de espera. Segundo funcionários do hotel, na primeira semana do serviço do UberCOPTER, foram registrados mais de 60 pousos e decolagens, chamados toques, em um mesmo dia no heliponto do edifício, acostumado a registrar, em média, apenas cinco solicitações diárias. O serviço acabou trazendo variedade para o local habituado a receber, na sua maioria, donos de empresas e estrangeiros endinheirados. Ajudou também a turbinar a demanda de viagens que vem caindo por conta da crise econômica.

Vale a pena?

Às 11h25, o empresário já tinha decolado e eu esperava ansiosamente a minha primeira vez. Na minha frente, embarcaria antes uma hóspede do hotel (que apareceu um minuto antes de partir) e ainda pousaria a aeronave com o grupo dos analistas de sistema. Somente às 11h46, fomos chamados para subir ao heliponto e fomos acompanhados por um segurança até a porta da aeronave, que partiu 11h53. A partir daí, o tempo - aqueles míseros 3 minutinhos - voaram literalmente. A experiência valeu mais pela possibilidade de um passeio aéreo por um preço mais barato do que o do mercado do que pela conveniência de fazer um trajeto tão curto. Demoramos, no total, cerca de uma hora e meia para fazer uma rota de 10km, que poderia ter demorado 15 minutos de carro ou, no máximo, meia hora em horário de pico. De UberX, o serviço de carro mais econômico do aplicativo, a corrida sairia por cerca de 24 reais. De ônibus, o trajeto demoraria 40 minutos e custaria 3,80 reais


Reportagem do EL PAÍS se prepara para embarcar. VICTOR MORIYAMA


Neste Uber não teve nada de oferecer água, balinhas, ou perguntar qual rádio eu preferia ouvir. O comandante Júnior me pediu apenas que colocasse o fone nos ouvidos e me ajudou a colocar os cintos. Ele ia trocando informações com a torre de controle, enquanto eu apreciava a vista lá de cima. A viagem até o Helicentro do Morumbi foi bastante tranquila até para os mais medrosos (como a jornalista que vos escreve), nada de turbulências ou instabilidades no voo. Sobrevoamos a Ponte Estaiada, a favela de Paraisópolis e o Estádio do Morumbi. Antes do meio-dia já estávamos em solo outra vez, após um pouso suave.


Vista aérea da Marginal Pinheiros.


EM CHOQUE COM OS PREÇOS DO MERCADO


Uma questão que ainda gera dúvidas sobre o serviço, assim como ocorre em relação a seu serviço tradicional, é como os preços praticados pela Uber nesta fase de teste seriam sustentáveis em um projeto de longo prazo. Segundo Arthur Fioratti, da Associação Brasileira dos Pilotos de Helicóptero (Abraphe), na tentativa de democratizar o uso de helicóptero, o aplicativo tem aplicado um preço irreal. "Claramente há um subsídio dos fabricantes para essa operação funcionar. Eles estão fazendo uma pesquisa de mercado para tentar entender melhor a demanda por esse transporte na cidade. Se quiserem apostar nesse mercado, terão que subir os preços", explica Fioratti, que ressalta que um custo médio de uma hora de voo, em uma aeronave média, gira entre 2.500 a 3.500 reais.
O aplicativo informou que ainda estuda a melhor forma de implementar o serviço do UberCOPTER na cidade, "pois trata-se de uma operação complexa e a Uber vê como necessário esse período de testes". A Uber também informou que não há informações sobre a continuidade da operação em São Paulo após o projeto piloto. Até a publicação deste texto a reportagem ainda não tinha recebido por email o valor da viagem realizada pelo UberCOPTER.

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