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Quanto mais interajo com a meninada de hoje, mais me convenço de como minha geração foi comportada na juventude.
Nossa balada dos anos 80 tinha poucos nomes. Conforme a faixa de renda, poderia ser o Serpe no Alto Alegre, o Muralha na região Norte, a Kalayami e a Bielle Club, no centro, ou o Flash ali no “balão” do Centro Cívico. Tinha também alguns “abatedouros” pós-balada, como o Feitiço e Barra Lanches.
No Flash, local que frequentei, era assim: apresentava-se o comprovante do pagamento ao porteiro Zé e submetia-se a uma breve revista (nem sempre).  
Já na entrada, tanto à esquerda como à direita, acessava as salas de “música lenta”, algo que os meninos de hoje não poderão entender. Se seguisse em frente, o cliente chegava à tal discoteca, uma febre da época.
As salas das “lentas” eram escurecidas, com alguns poucos estofados, luzes negras e avermelhadas. Quem usasse branco se destacaria naquele cenário.
Ali os meninos convidavam as meninas para dançar de rosto colado ao som de sucessos internacionais do Queen, Bee Gees, Abba e outros menos votados. Eventualmente um “London, London”, do RPM.
Para enfrentar a timidez, alguns garotos “firmavam o pulso” em uma caipirinha de copo grande e compartilhado, na Lanchonete Kaiser, do pai do Paulão, o professor Paulino.
E era preciso mesmo reunir coragem para chegar na desconhecida e lascar um: “vamos dançar?”. O “toco”, a recusa da pretendida, era algo frequente para os menos apessoados.
E como é hoje? Cervejada da virada no Black Cap Eventos, bairro Neva, Cascavel. A festa começou em 2017 e só foi terminar no ano seguinte. Último lote dos ingressos a quase R$ 100.
Galera dividida em castas: de um lado o mortais comuns, de outro os que podem pagar o mezanino e acessam uísque modinha da balada - o Jack Daniel’s no open bar - e estão autorizados a petiscar pratos de sushi.Estar no mezanino é um diferencial com as garotas. Dá status. Mas ninguém passa fome. Todos podem “ficar”. O verbo, se fosse para o dicionário Aurélio, poderia ser descrito assim: “beijar na boca, se pegar por alguns minutos, e aí já era...”.
Já era, no caso, não é consumar o ato. É partir para outra. Há meninos que “ficam” com 40 meninas em uma cervejada. Além dos costumes liberalizados, vitaminados pelas redes sociais e o celular onipresente, a balada, vale lembrar, é open bar: cerveja, vodka e outra modinha - o litrinho parrudo da catuaba, servidos à vontade.
“No início da balada, os bonitinhos e bons de gogó se dão melhor. Depois que as meninas estão de porre, todo mundo se dá bem”, relatou ao colunista o “Jacaré”, um baladeiro presente na cervejada da virada.
Olhando para este cenário, me convenço, com um certo desapontamento,  que minha geração da “música lenta” poderia pleitear a santidade junto ao hermano Chico.  
Em tempo: Nos anos 80, a palavra “ficar” já existia. Veja como o vocábulo era traduzido no dicionário: Ficar - verbo transitivo. Não sair de um lugar ou de uma situação; permanecer. Não ir além de...

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