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J.R.Duran fala da mudança do significado do charuto atualmente e em sua infância

Na minha infância, um charuto carregava diversos significados: bem-estar, classe,confraternização familiar. Hoje ele se tornou o caminho mais rápido para uma enxaqueca


Cresci em um país onde a nobreza passeava pelas ruas sem escolta nem pompa e circunstância. Me lembro da primeira vez que vi alguém com sangue azul de perto. Foi em uma mesa de bar, numa rua de Barcelona, e a figura em questão era o marquês de Villalonga (1). O marquês era um senhor com o cabelo puxado para trás, bem vestido, sorridente e que, no momento em que me apontavam, dedicava sua atenção para uma bela mulher. Levava o casaco sobre os ombros, como se fazia naquele tempo, e segurava um charuto na mão. Era uma época em que não se proibia fumar em nenhum lugar. Ao contrário, parecia que se você não soltasse fumaça pelas narinas estaria vindo de outra galáxia.

O charuto que o marquês girava entre seus dedos era um símbolo que carregava, entre suas folhas, vários significados: o bem-estar (só se fuma charuto quando se está de bem com a vida), uma certa classe social (charutos bons não são baratos) e um momento especial (fumar um charuto não pode ser feito às pressas, requer certo tempo). O marquês de Villalonga, além de ser um bon-vivant megagalinha, era um bom escritor, jornalista e até ator em alguns filmes (2).

Café, copa i puro
O cheiro da fumaça de charuto – do bom charuto, claro – até hoje me lembra alguns almoços de domingo na casa dos meus pais na Catalunha. Eram as ocasiões em que tios e avós se reuniam, almoços de “café, copa i puro”, boas refeições que mereciam um longo fim coroado por café, licor e charuto. Sempre achei que, quando crescesse, poderia ser um fumador de charutos e manejá-los, e a vida, com um pouco da maestria do marquês de Villalonga.

Zino Davidoff, o maior distribuidor de charutos cubanos que o planeta já teve, dizia que “você não acende um charuto porque o dia é especial, o dia se torna especial porque você acendeu um charuto” (3). Acontece que, por alguma incompatibilidade entre as células do meu corpo e as folhas de tabaco, toda vez que fumo um charuto (cubano ou não) me dá uma forte enxaqueca. O destino fez com que o sonho de contemplar, como o tempo desaparece numa nuvem de fumaça, ficasse apenas na memória.

E tive de aprender a tornar meus dias especiais sem a ajuda de um charuto, cubano ou não.

(1) Jose Luis de Villalonga (1920-2007), marquês de Castelvell, El Vilar e Castellmeiá, barão de Segur, Malda e Maldanell, Grande de Espanha.

(2) O marquês contracenou com Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo, filme dirigido por Blake Edwards. Ele fez o papel do playboy brasileiro José da Silva Pereira, que aparece acompanhando uma modelo durante a festa no apartamento da protagonista.

(3) A lua de mel de Zino Davidoff (1906-1994) com o governo cubano durou até 1991, quando se desentendeu com a Cubatabaco e transferiu toda a operação para a República Dominicana.
J.R. Duran, 55, é fotógrafo e escritor www.twitter.com/jotaerreduran

(Obs: O Ministério da Saúde Adverte! Não Fume.) 

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