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A chave está em aprender com paciência a integrar os lados luminosos e sombrios do ser

Ver-se, acidentalmente, embaixo de um caminhão sem o menor arranhão fez a artista e escritora norte-americana Kathleen Van Kieft dar uma verdadeira guinada em sua vida. Mexida com o inexplicável, ela mergulhou tempos depois na pesquisa sobre o potencial criativo humano, sobretudo, no que respeita à capacidade de recriar a própria realidade vivida.

Sua consagrada obra ‘‘A Fonte Interior’’, re-editada pela Editora Best Seller, é uma espécie de bíblia dos acontecimentos inusitados, originados pelo poder pessoal contido nos pensamentos, emoções, palavras e ações, óbvios mas não identificados pela maioria das pessoas.

Uma das narrativas do livro se refere a uma de suas amigas, surpreendida por um nódulo na mama e, antes de se submeter ao tratamento convencional, tentou ‘‘descriar’’ o que acreditava ter criado, por um desligamento sobre suas emoções e vida. Como já enveredava pelo autoconhecimento, sem se desligar do corpo, pediu a seu médico um prazo de duas semanas para ampliar sua autopercepção interior, ajudando ativamente em seu processo de cura.

O REAL - O ser humano possui, de fato, uma capacidade natural de criar e também de recriar sua vida e sua realidade. Quando se fala natural, diz Fátima Macedo, enfermeira e facilitadora do trabalho de crescimento pessoal Pathwork, entende-se que todos os seres tenham o mesmo potencial de criar a realidade de suas próprias vidas de forma saudável. O único impedimento está no modo como cada um reage à própria vida, ou seja, no significado que dá a cada um dos eventos que lhe sucedem.

Na verdade, existe uma carga de crenças familiares e culturais, que conduz as pessoas a interpretarem a realidade sob um ponto de vista específico. A estruturação egóica, esclarece, faz com que se esqueça de outros estados de consciência além do ego, os quais são mais inteiros (‘‘puros’’) e, de uma certa maneira, mais livres para moldarem a própria vida em sua plenitude. ‘‘Há um poder imenso - em nossas emoções, sentimentos, pensamentos, crenças e intenções - para criar, tanto para o bem quanto para o mal.’’

DESAFIOS - A vida e todos os desafios são expressões exatas do estado interior de cada pessoa, destaca outra helper do Pathwork, a psiquiatra Maria Fernanda Nascimento. Confirma que não há segredo da alma que a atitude de cada ser não revele em sua própria existência. Se a pessoa conseguir olhar para sua vida, poderá ver como está pensando e agindo em sua totalidade: saúde, família, afetividade, trabalho, finanças, ...

Além de ser uma capacidade humana inata, criar também é uma grande responsabilidade, diz Maria Fernanda.‘‘Todo o tempo, criamos e recriamos situações, seja consciente ou inconscientemente. Por isso, somos os verdadeiros agentes (causadores) de nossas próprias circunstâncias de vida.’’

A circunstância - ou instante - dentro do círculo da vida, é um conjunto multifatorial de pensamentos, sentimentos e atitudes, conscientes, semi-conscientes e inconscientes, de cada ser e de todas as pessoas envolvidas no mesmo instante. Normalmente, explica, as pessoas acreditam no que afirmam querer para a própria vida, sem se darem conta de tudo aquilo que não querem.

E ensina: ‘‘O que não queremos - e até ignoramos que não queremos - é também agente criador de nossa realidade. E é ainda mais poderoso por estar sendo ignorado e agir na ‘sombra’, longe da percepção consciente. Como ocorre com todas as coisas reprimidas no inconsciente, longe de nos livrarmos delas, as reencontramos em todos os lugares. E esta é a chave para identificarmos de que parte interna estamos criando aquela situação específica.’’

OLHAR O ‘‘NÃO’’ - Em geral, avisa, todos criamos o oposto do que dizemos querer por não termos a coragem de olhar para este ‘‘não interno’’ ao nosso próprio desejo. Por isso, pontua, estarmos atentos aos nossos próprios desejos custa esforço, paciência e honestidade.

Caso o querer pessoal esteja aprisionado às vontades e desejos da dimensão infantil e imatura do ser, torna-se volátil, volúvel e efêmero. Como a maior parte das pessoas se encontra frustrada nas suas reais necessidades infantis, suas atuais frustrações e fantasias acabam criando uma grande desordem externa como reflexo do caos interno. ‘‘Na natureza interna do ser se movem os impulsos, as sensações, percepções e emoções na sua forma mais livre e primitiva. Com isso tudo nós também co-criamos a nossa realidade externa.’’

Criar é uma capacidade poderosa que, em absoluto, está sob controle da mente concreta, avisa Fernanda, lembrando que esse poder reflete todo um conjunto interno da riqueza da psique e da alma, que em tudo busca a purificação e a união. Por isso, todo aspecto negado, temido, reprimido e oculto procurará vir à tona e achar sua expressão para ser reconhecido e integrado ao sistema.

Unindo tudo, todos os lados, conseguimos nos tornar inteiros, íntegros, completos. ‘‘Precisamos ter a coragem de encarar, enfrentar - ficar frente a - nossa situação atual que nos incomoda, como criação interna. Só assim teremos a capacidade de identificar os aspectos que a criaram, regatá-los e aí, sim, irmos completando esta grande obra de arte que é a nossa vida, pessoal e coletiva!’’

PACIÊNCIA - Parte do processo de criação envolve justamente encontrar as emoções negadas, como o medo, a raiva, os ciúme, a inveja, a competitividade e também a grandeza, a compaixão e mesmo o amor, quando negados pela personalidade e pelo ego. Elas, por si só, não são boas ou más, mesmo que as qualifiquemos assim.

‘‘São apenas expressões de nossa humanidade e, uma vez observadas com a consciência, nos permitem criar mais plenamente, assumindo os resultados da criação realizada e sua possível transformação. É a grande libertação que esta compreensão nos traz: se criamos uma situação que aparentemente não desejamos e nos tornamos conscientes disso, podemos dissolvê-la.’’

Outro elemento essencial do processo de criar, prossegue, é a paciência de deixar estar, de aprender a ter confiança em que a vida lhes devolva aquilo que lhes enviamos. Fátima Macedo diz que se a espera se dá com a sensação de relaxamento, não haverá sombra de dúvida quanto à sua realização. ‘‘Uma das tarefas do ego é aprender a paciência e a confiança’’, completa.

Fátima esclarece que todos somos capazes de recriar tudo e, se damos uma direção final ao que desejamos, sem negar nenhum dos aspectos envolvidos, permanecemos centrados em nosso Poder Real de co-criadores.

Ela gosta de ressaltar um aspecto que sempre aparece além do temor. É a culpa. Em geral, todos queremos o resultado, embora não desejemos pagar o preço de realizar a tarefa. Queremos o bom, o agradável e o perfeito, mas trapaceamos com o feio, o sujo e o ruim. A culpa é por trapacearmos com a vida. ‘‘Não podemos realizar uma criação plena enquanto um aspecto é enaltecido e outro rejeitado. É preciso correr o risco de criarmos com todos os elementos, olharmos o resultado, integrarmos os efeitos e completarmos nossa arte.’’

SERVIÇO: Grupos de Pathwork, com as facilitadoras Fátima Macedo, (palestra dia 2, workshop dias 3 e 4) e Maria Fernanda Nascimento, (palestra dia 11). Informações: (85) 3261-3389 e 9984-5720 (com Maria Isabel).

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