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por Mariene Perobelli
Esta semana a vida me presenteou com uma cena que vem me rendendo grandes aprendizados. Estive com um grupo de mães pedindo socorro porque não estão “dando conta” dos filhos (2 a 3 anos) fazendo birra, ditos hiperativos.
Enquanto a médica pediatra amorosamente escutava e orientava as mães, eu observava as crianças brincarem e as relações mães – crianças. Percebi mulheres exaustas, esgotadas, abandonadas, solitárias na difícil e responsável tarefa de educar suas crianças. O masculino ausente tanto para a mulher quanto para a criança. Mulheres fazendo o duplo papel: pai e mãe “pãe”. Solitárias. Pelas pessoas que as cercam, ao invés de receber acolhimento, apoio e solidariedade, recebem julgamentos e críticas.
Mulheres guerreiras que trabalham o dia todo
Chegam em casa e precisam cuidar de tudo sozinhas (casa, roupas, comida, crianças…). Não há espaço nem condições para criar vínculo com os próprios filhos. Uma mulher esgotada, irritada, sofrida, terá muita dificuldade em vincular-se verdadeiramente pelo olhar, falar suavemente e tocar delicadamente suas crias.
As mães sofrem, as crianças mestras na arte de espelhar, buscam meios de mostrar para todos o sofrimento da mãe. Como? Fazendo birra, agindo com agressividade e hiperatividade.
Mas quem vê a mãe, verdadeiramente?
Os estímulos que as crianças recebem no lar são inadequados, por falta de informação por parte dos adultos e por falta de estrutura familiar. Não há culpados. Mas há responsáveis. Todos nós somos responsáveis. O que fazer? Sugiro que comecemos olhando amorosamente estas mulheres e acolhendo suas dores.
Criemos redes de apoio, acolhida e informação de qualidade. Ainda não descobri como chegar nos homens, nos pais que não vivem a paternidade… se eles soubessem as lacunas que estão deixando nas almas de suas crianças por não assumirem seu papel neste sistema…
As crianças não precisam ser fardos.
Elas apenas estão pedindo socorro. Conhecemos o provérbio africano que diz “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. Quando morei na África, escutei que “também é preciso uma criança para educar uma aldeia”. Que tenhamos a sabedoria ancestral de criar redes seguras de acolhida da mãe e da criança no mundo. E que sejamos sensíveis o suficiente para aprendermos com a “sabedoria-nova” que a criança nos traz.
Mariene Perobelli, mãe, educadora, atriz, especialista em Desenvolvimento da Criança.
Imagem da fotográfa Elliana Allon.

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