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Condomínio no interior do MS atrai visitantes do país inteiro

Os viajantes desavisados que chegam à vila de Zigurats, em Corguinho, no interior de Mato Grosso do Sul, não sabem que nem todos os seus habitantes podem ser vistos a olho nu. Entre as dezenas de casinhas redondas do povoado, erguido num matagal e contornado por uma vista privilegiada do Cerrado, há uma residência em especial que não foi destinada a um ser humano. O nome desse morador é Bilu, o extraterrestre que se popularizou depois de ser retratado por programas de TV a partir de 2009 e que ajudou a projetar o lugar.
A exposição midiática, em geral de forma jocosa, tirou do anonimato os moradores de Zigurats, um tipo de condomínio com 30 residentes fixos e outros 40 temporários que começou a ser construído na virada do século por uma associação chamada Dakila Pesquisas, cujos membros estudam, entre outros assuntos, alienígenas e civilizações antigas. Desde os primeiros programas de TV, cresceu o número de curiosos que visitam o lugar, a cerca de 100 quilômetros de Campo Grande.
O mais novo grande projeto da Dakila foi o lançamento no ano passado de um documentário que coloca em xeque o fato de a Terra ser esférica. Para os moradores de Zigurats, nosso planeta é plano em sua superfície e convexo na “base”. O mundo como o conhecemos, dizem eles, estaria limitado a uma imensa borda de gelo, a Antártida, além da qual existiria uma região ainda inexplorada pela humanidade. Os membros da Dakila a chamam de “Norte Maior”, o continente onde nenhum desbravador jamais colocou os pés.

Urandir Fernandes de Oliveira, considerado o “pai do ET Bilu”, fundador da Dakila, pode ter uma teoria diferente das ideias convencionais do terraplanismo, que não defendem a existência de novos continentes inexplorados. Em comum, Oliveira concorda que a Terra não tem o formato comprovado pela ciência. E ele não está só. Sete por cento da população brasileira acredita que a Terra seja plana, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em julho. Assim como outros terraplanistas, os membros da Dakila apresentam como principal evidência para comprovar a teoria a ideia de planicidade das superfícies aquáticas. Segundo eles, se a Terra fosse de fato curva, um objeto que se afastasse demais ao longo de um plano aquático, como no mar ou num lago extenso, sumiria no horizonte. “Nós fomos no Lago Titicaca (no Peru), numa época em que a água está muito gelada, para ela não evaporar, e a gente via a rua lá do outro lado, a 180 quilômetros de distância. Cadê a meleca da curvatura? Não tem. A água é plana, você pode ter certeza”, disse o engenheiro civil Paulo Parra, de 72 anos, membro da Dakila. “Agora imagina chegar para mim, que sou engenheiro civil, baseado na ciência, e falar que a Terra não é redonda? Ô, gente, eu sofri demais.” Alessandro Drago de Oliveira, também autointitulado “pesquisador”, disse que a descoberta da Dakila “acaba com tudo que se sabia sobre astronomia no mundo” e prova que “todos os astrônomos estavam muito, muito errados”.
A pista para a descoberta da Terra convexa, afirmou a professora aposentada Vera Pedrosa, de 70 anos, que largou a vida no Rio de Janeiro para viver na comunidade em Mato Grosso do Sul, pode ter vindo como uma revelação do próprio ET Bilu, durante um contato com uma equipe de TV que foi a Corguinho para tentar captar imagens do ser de outro mundo. “Um repórter veio aqui e ouviu do Bilu que a Terra não era redonda, que a gente tinha de pesquisar mais. O Bilu queria se mostrar para ele, mas o repórter recuou, ficou com medo e não publicou a matéria. Ele tinha a oportunidade de ganhar o prêmio mundial de jornalismo. Era uma notícia que mudaria o mundo”, declarou a ex-professora. “O Bilu disse para buscarem conhecimento, e hoje a internet toda fala sobre isso.”
A frase que se tornou quase um mote do extraterrestre foi levada a sério pelos membros da Dakila. Eles se definem como “buscadores de conhecimento”, e a mensagem foi até estampada nos caminhões que trabalham nas obras do local. “Nós somos o legado de Bilu”, afirmou Paulo Vieira, de 23 anos, que largou a faculdade de engenharia e foi morar em Zigurats há dois anos. “Eles são erroneamente chamados de ETs, porque são muito mais parecidos com a gente do que os filmes mostram. O termo correto é ser extradimensional. São seres de outra dimensão que simplesmente vibram numa faixa de frequência diferente”, completou.
Acreditar que a Terra não é esférica é tão estranho quanto acreditar em extraterrestres. O conhecimento do formato de nosso planeta é anterior ao nascimento de Jesus Cristo. Defender o contrário requer sair do campo da ciência e de princípios fundamentais da geografia comprovados por mais de dois milênios e entrar num pensamento mágico. Para Vera Jatenco, professora do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), a teoria terraplanista e da Terra convexa não tem pé nem cabeça. “Que a superfície da água não é plana pode muito facilmente ser comprovado, observando um navio que se afasta perpendicularmente ao continente. Primeiramente o casco começa a desaparecer e, aos poucos, o navio todo desaparece, sendo o mastro a última parte a desaparecer. Embora os terraplanistas digam que isso não acontece, esse fenômeno já foi, e tem sido observado, milhares de vezes”, disse.
A comunidade tenta dar um ar científico a suas ideias. Conta com uma pequena casa batizada como Centro Tecnológico de Zigurats (CTZ), um telescópio e as fundações do que deverá ser uma pirâmide de 63 metros. A localização escolhida não foi por acaso. Segundo Oliveira, o fundador, o terreno se encontra no paralelo que está 19 graus a sul do plano equatorial da Terra, “um dos vórtices mais poderosos de energia hoje em dia”. Ele afirmou que nessa faixa são abundantes as aparições de fenômenos não naturais. E também disse acreditar que a imagem de extraterrestres como criaturas macabras foi inventada pelas “lideranças mundiais” para assustar a população.
Pensada para perdurar por mais de 1.000 anos, segundo os membros da comunidade, a vila terá até mesmo um “sistema antiapocalipse”. Quando estiverem prontas, planeja-se que as casas, quase todas em formato de iglus, vão ser interligadas por galerias e corredores subterrâneos, por onde será possível se deslocar sem precisar subir à superfície e estocar comida para longos períodos de crise. A ocupação do lugar tem outras propriedades, disseram alguns moradores. “Até a arquitetura das casas promove um acréscimo de energia”, disse a ex-atriz gaúcha Lígia Rigo, que mora na comunidade com o marido Telmo Flores, de 68 anos.
Os moradores de Zigurats levam a sério a sustentabilidade. Além de evitar ao máximo o consumo de produtos industrializados, dizem se esforçar para plantar a própria comida ou comprá-la das três comunidades quilombolas existentes na região, que produzem alimentos diversos sem agrotóxicos ou demais produtos químicos. Tetos solares ajudam na economia de energia, o lixo orgânico é separado para compostagem e o demais é selecionado para reciclagem.
Nascida no Paraguai, Amanda Riveros, de 60 anos, largou tudo para se mudar para a vila. Ela afirmou que vivia viajando pelos Estados Unidos, fazendo compras para sua loja de perfumes, até que parou para pensar em si mesma. “Minha vida deu uma reviravolta. Perdi família, amigos, trabalho, quando conheci isto aqui. Me chamaram de louca, mas hoje não troco ( Zigurats ) por nada. Se eu pudesse recomeçar minha vida conhecendo isto aqui, seria outra pessoa. Quando você vem para cá, você se conhece. Conquistei uma família aqui. A gente acaba pensando igual, querendo as coisas da mesma forma”, disse a ex-comerciante, antes de começar a chorar, emocionada.
A vida saudável é outra regra seguida à risca. Paulo Vieira, que trabalha no CTZ e monitora os visitantes, declarou que uma das metas da Dakila é alcançar a máxima longevidade da vida humana — talvez até a vida eterna, dizem eles. “A gente se aprofunda, além daquilo que a gente chama de lacunas da ciência, na questão da alimentação, de atividades físicas e do prolongamento da vida. Chegar a 80, 90, 100 anos com saúde”, afirmou Vieira, citando a argila “mágica” da região como uma das promessas para alcançar esse objetivo.
A argila de Zigurats é o produto xodó da Dakila, que até abriu uma nova empresa, a Kion Cosmetics, só para vender os cremes de beleza, cuja propaganda está sendo estampada em revistas da região. “Essa argila não tem em outro local. Ela tem uma substância que não é conhecida pela ciência ainda”, afirmou Oliveira, orgulhoso. “Para cosmético, rejuvenescimento da pele, ela é especial, porque tem propriedades eletromagnéticas. Mandamos o material para fora do país. Lá no Canadá eles não conseguiram registrar todos os minerais que ela contém. São mais de 123 elementos, que fogem da tabela periódica que conhecemos”, sustentou Oliveira.
Além da Kion, a comunidade tem outras 12 empresas, entre as quais uma fábrica de cerâmica — para economizar na construção de Zigurats —, uma atacadista de produtos alimentícios, uma varejista de bebidas e uma companhia de construção civil. O capital social de todas as empresas soma cerca de R$ 700 mil, mas Oliveira não dá detalhes de como chegou a essa cifra. Ele jura que todo o financiamento da Dakila vem das mensalidades de R$ 150 pagas pelos 4.500 associados.
Além do grande apreço pela vida saudável, da desconfiança no governo e nas grandes companhias e da descrença num planeta Terra esférico, os moradores de Zigurats compartilham experiências próprias com Bilu e outros seres de outra dimensão. Oliveira disse que a criatura tem 1,40 metro. Já Vieira deparou com uma versão um pouco mais alta, de aproximadamente 1,70 metro. O aspecto comum, eles concordam, fica por conta da voz, um tanto infantilizada, cuja gravação pode ser encontrada no YouTube.
Questões envolvendo Bilu continuam perseguindo a comunidade até mesmo nessa nova fase, mais voltada para o formato da Terra. Existe uma disputa entre os terraplanistas e o grupo liderado por Oliveira, contou uma moradora de Zigurats. “Alguns até entraram para nossas pesquisas e continuam defendendo a Terra plana”, disse ela. A explicação para a teimosia em não aceitar a teoria de Oliveira seriam feridas religiosas da época em que o ET Bilu ganhou notoriedade na imprensa. “Como eles ( terraplanistas ) são muito ligados à religião, e a maioria é evangélica, eles acham que ET é demônio. Então eles não aceitam de jeito nenhum. Tem gente que acha que é farsa, você acredita?”
Com informações Revista Época]

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