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Iran Coelho das Neves*

Em momento profundamente difícil e angustiante, mais do que impossível seria desumano e até afrontoso deixar de prosseguir no grave tema em torno do qual escrevemos os últimos cinco artigos: a pandemia de Covid-19 que atormenta o mundo.
Os números estarrecedores de contaminados e mortos, que há algumas semanas nos chegavam da China, da Espanha, da Itália e dos Estados Unidos, agora, como era esperado, nos confrontam com a realidade brutal que bate à nossa porta. Pior ainda: o malsinado novo coronavírus não está à porta. Adentrou com sua conhecida fúria.
Como soe acontecer com inimigos invisíveis e letais, e como previam autoridades em saúde e lideranças políticas responsáveis, o vírus grassa em nosso país com uma velocidade de contágio que, segundo especialistas, está gravemente subestimada, pela nossa incapacidade de testar um número de pessoas que assegurasse uma estimativa tecnicamente razoável de contaminados.
Sem um mínimo de segurança sobre a expansão do contágio, especialistas estimam que o número de infectados no Brasil pode ser de 5 a 30 vezes maior do que o oficialmente apresentado a cada dia. Sem qualquer alarmismo, o prognóstico é simplesmente estarrecedor quando se leva em conta que mais de 80% dos infectados podem não apresentar nenhum sintoma, o que os torna disseminadores descontrolados do novo coronavírus.
Na quinta-feira (23/04), quando escrevia este artigo, o Brasil contava oficialmente quase três mil mortos e mais de 46 mil infectados pela Covid-19.
Em S. Paulo, cidade mais rica e desenvolvida do país, o estrutura pública de saúde estava à beira da saturação. No Rio de Janeiro, a situação era similar. Com uma vasta população vivendo em favelas onde a água é um ‘luxo’ e a habitação sub-humana uma realidade cruel, a capital fluminense pode estar condenada reviver, 102 anos depois, a tragédia da febre amarela que assolou a então capital da República.
Em Manaus, a rede hospitalar entrou literalmente em colapso, ‘represando’ uma avalanche de vítimas do vírus. Fortaleza e Recife seguiam, na última quinta-feira, o mesmo caminho de saturação de suas redes de saúde. O que significa que, com hospitais superlotados e sem vagas em UTIs, em breve um sem-número de infectados terão de contar com a “sorte” para vencer a Covid-19. A ‘alternativa’, lamentavelmente, seria morrer em casa.
Depoimentos de profissionais de saúde nos dão conta de que em alguns hospitais, médicos já são submetidos à infausta ‘escolha de Sofia’: forçados pela escassez de equipamentos se obrigam à pior contingência de suas vidas: a escolher entre os pacientes aquele que terá acesso à UTI.
Vergonhosamente doloroso para o país e para cada um de nós que tenha um mínimo de sensibilidade humana.
Diante de um panorama tão sombrio, cujos contornos se agravam a cada dia, quando os números de contaminados e mortos se ampliam  em fatídica escalada, com filas de carros funerários à espera para ‘entregar’ cadáveres de vítimas da Covid-19 em cemitérios que, com cada vez maior frequência, os sepultam em valas comuns, é assustador e incompreensível que um percentual alarmante da população teime em desobedecer o distanciamento social, defendido pelas autoridades como única forma de conter o contágio em níveis suportáveis para o sistema de saúde.
Mesmo em estados como Mato Grosso do Sul, onde o número oficial de contagiados – aqui, como em todo o país, subestimado pela baixa testagem – e de mortos pela Covid-19 está em patamar relativamente baixo, o relaxamento das regras de distanciamento social e de retomada das atividades econômicas exige das autoridades o máximo de precaução.
Prognósticos cientificamente embasados afirmam que ainda não estamos no estágio mais agudo da pandemia, prevendo para as próximas semanas ampliação exponencial do contágio.
Tal hipótese, lúgubre, porém realista, adverte para a necessidade imperativa de que o eventual afrouxamento das medidas de restrição ao contato social seja adotado de forma gradual, baseado em critérios técnicos confiáveis e, naturalmente, condicionado a aferição rigorosa que permita estimar – já que o número defasado de testes não permite estatística segura, repita-se – uma incidência reduzida de contágio.
Não seguir com rigor esses critérios significa incorrer no risco real e gravíssimo de uma explosão de casos de Covid-19. O que obrigaria as autoridades a impor medidas muito mais severas e restritivas.
*Iran Coelho das Neves é Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.

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