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Iran Coelho das Neves*

Com a epidemia de Covid-19 em curva ascendente em nosso estado e em quase todo o Brasil, avançamos para os últimos dez dias do primeiro semestre de um ano que, profundamente trágico para toda a humanidade, na prática não está sendo contado pelo calendário gregoriano, mas pelo cronômetro cruel da expansão e da letalidade do novo coronavírus.

O atual estágio de desenvolvimento tecnológico alcançado pela sociedade contemporânea, responsável pela globalização crescente e irreversível das economias nacionais, e pela interconexão instantânea que anula distâncias entre indivíduos, estados e empresas dos quatro cantos do mundo, confere à esta pandemia a dimensão de tragédia igualmente planetária, jamais vista na história da humanidade.

É nesse contexto de aldeia global, conceituada pelo filósofo canadense Marshall McLuhan, que a epidemia do novo coronavírus se confirma, pela impressionante escalada de contágio e de vítimas fatais – 8,1 milhões de infectados e 444 mil mortos, até quarta-feira, 17/06 – como a mais dramática e desafiadora experiência literalmente coletiva da civilização contemporânea.

Sem vacina ou remédio eficaz para combatê-la, em meio ao suplício imposto a centenas de milhares de vidas ceifadas e milhões de infectados, a Covid-19 provocou um único ‘efeito colateral’ potencialmente benéfico e promissor: a conexão, também planetária, de cientistas e pesquisadores empenhados na busca da prevenção contra o patógeno devastador, e da cura para os contaminados por ele.

Tão salutar ‘efeito colateral’ consuma-se como valor civilizatório transcendente, na medida em que, pelo menos diante da maior crise sanitária em mais de um século, a sociedade contemporânea – cuja globalização está longe de reduzir múltiplas rejeições – ainda é capaz de se irmanar através de suas mais respeitadas competências científicas, em busca da redenção do ser humano diante de mal tão insidioso. E global, no que o termo tem de mais ameaçador, quando tratamos de um vírus com tal poder destrutivo.

Há razões para fundadas esperanças de que esse extraordinário esforço comunitário de pesquisadores de diferentes países resulte, no tempo exigido pelo rigor científico, em vacina eficaz para prevenir a Covid-19 e/ou em remédio para tratá-la.

Até que chegue esse tão esperado momento, na prática, como dizíamos no início, o calendário gregoriano segue ‘suspenso’, substituído por uma contagem de tempo imposta pela mortífera ditadura do novo coronavírus.

Atividades econômicas as mais diversas, o ensino em todos os níveis, a administração pública, o lazer, as viagens de negócios ou a passeio, e, em muitos casos, até o elementar direito de ir e vir – tudo isso e muito mais não se pauta hoje pelo calendário convencional, mas pelas mensurações do nível de contágio do vírus.

“Quando a pandemia passar” ou “quando o coronavírus deixar” viraram referências sobre a impossibilidade de se ajustar compromissos de qualquer ordem a datas ou período definido, como era normal até há pouco.

E até que não se tenha vacina eficaz ou tratamento, não se submeter a esse calendário imposto pelo arbítrio patogênico e potencialmente mortífero do coronavírus significará insensata afronta a esse cruel e invisível ditador de um tempo que agora se mede – e se projeta –, infelizmente, pelos números de contaminados e pelas trágicas estatísticas de mortos. 
  
*Iran Coelho das Neves é Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul.

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