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Possivelmente você deve ter visto essa brincadeira. Nos últimos dias ela se popularizou pelo Facebook. O usuário escrevia 10 frases sobre a sua vida. Nove eram verdades e uma era mentira.
E aqui estão as 9 verdades e uma mentira sobre ser roteirista no Brasil:
1 – você pode viver e se sustentar com essa profissão.
2 – sua família dificilmente entende o que você faz.
3 – você precisa convencer produtoras audiovisuais da importância do seu trabalho.
4 – em diversos casos você é contratado por produtores/diretores que não fazem a mínima ideia do quão importante é o seu papel.
5 – a equipe em um set de filmagem sabe ler e interpretar um roteiro.
6 – no cinema, em 98% dos casos, você escreve sem receber.
7 – existe mais demanda do que profissionais habilitados e com conhecimento para isso.
8 – roteirista é a profissão mais promissora dentro do audiovisual brasileiro, juntamente com produção executiva.
9 – faculdade de cinema é opcional e não obrigatória.
10 – você não precisa morar em uma cidade grande para atuar nessa profissão.
E aí..qual é a mentira?
Lancei os itens acima na página da Escola de Roteiro. Muitos acertaram o item mentiroso. Alguns erraram.
Vou começar pelas verdades.
Alguém chegou a dizer que o item 01 era a mentira. Lógico que, como em qualquer profissão autônoma é necessário suar muito pra “chegar lá”. Porém, você pode viver e se sustentar com essa profissão. Me utilizo como exemplo. Vivo e me sustento com isso há pouco mais de 10 anos. O fato aqui é: você precisa sair da caixa e começar a entender a sua carreira como uma empresa. Ler outros livros (que não de cinema) e buscar entender aspectos administrativos e burocráticos de uma instituição. Faz toda a diferença.
Alguns comentários na postagem diziam que o item 09 era mentira. Eu posso garantir pra você: pra ser roteirista não é necessário fazer faculdade de cinema. Não tem nada a ver com ser autodidata. Espera.
É importante fazer? Depende. É obrigatório fazer? Não. Depende muito do que você deseja para a profissão. A universidade é um caminho bastante interessante, mas a dramaturgia, o conceito da narrativa, a construção dos personagens não é algo amplamente estudado na faculdade de audiovisual. Essa graduação está concentrada no todo cinematográfico.
Então, se você quer atuar em um set de filmagem é importantíssimo fazer Cinema. Se você se interessa em ser escritor audiovisual, não. Isso não quer dizer que você não pode fazer e que você não deve fazer. Veja bem. Quero apenas enfatizar que você deve mergulhar em outros cursos onde você terá mais ativo o estudo das palavras, da escrita, da literatura, do teatro, da dramaturgia e em todos os movimentos que envolvem artes temporais (com início, meio e fim). E para isso, não é necessário graduar-se em cinema.
Se você estiver no Brasil, pode ser: letras, teatro, jornalismo, publicidade, cursos técnicos acerca do tema.
Os itens 2, 3 e 4 são muitos parecidos. No caso da sua família, você diz, com palavras muito superficiais, que você é o criador da história. Mas existem diversos elementos nessa criação.
Bem…
…o grande problema é que a maioria das empresas produtoras audiovisuais também não tem a real noção do que você faz. Eu acredito que há dois tipos de produtoras. As que não querem troca e crescimento (e estão interessadas em um roteirista que apenas escreve o que elas precisam) e as que trocam e dialogam (são mais raras).
Neste caso, os itens 3 e 4 fazem parte das verdades. Ou seja: as produtoras e empresas precisam do roteirista porque não sabem tirar palavras da cabeça, mas não fazem ideia do quão maior pode ser a parceria com um escritor audiovisual.
Na verdade, nosso trabalho é muito além do escrever!  Esse processo é muito difícil, cheio de percalços e requer estudo, treino, prática, aperfeiçoamento. É por isso que enfatizo: precisamos convencer as produtoras. Porque toda a vez que alguém me chama pra escrever uma obra, eu preciso explicar o passo a passo, mostrar que o buraco é mais em baixo, demonstrar que o caminho pode ser mais cheio de obstáculos e, por conta disso, preciso deixar claro que escrever é muito mais do que escrever.
Ao mesmo tempo, existe uma demanda altíssima para desenvolver boas histórias (item 07) e poucos profissionais habilitados para tal. Alguns roteiristas caem na mesma ideia do parágrafo anterior e acreditam que o trabalho “é escrever”. Daí vira uma bola de neve. A demanda é enorme, mas profissionais habilidosos estão em falta. O mercado mudou e a venda mudou.
As marcas hoje não querem produzir vídeos de venda. E precisam contar histórias.
É por isso – e pelo crescimento grandioso do audiovisual nos últimos cinco anos – que o item 08 é uma grande verdade. Quando eu criei a Escola de Roteiro, em 2014, a minha frase era: “o roteirista é a profissão do futuro”. Minha frase atual é: “O roteirista é a profissão do momento”. Foi muito rápido! A prova disso são os alunos da Escola que hoje estão vivendo como escritores audiovisuais.
Com essa busca, o item 10 torna-se muito forte. Você não precisa morar em um grande centro pra ser um escritor audiovisual profissional. Não estou falando de cinema. Estou falando de um roteirista que dialoga com linguagens do mercado.
Você tem Skype, WhatsApp, e-mail, Facebook para vender seu serviço, conversar, fazer reuniões. Usar a cidade como ‘desculpa’ não está mais na moda. Isso é tão 2005…
Aqui, você precisa ter cuidado com um grande influenciador. A pior forma de entrar no cinema (se você deseja isso) é começar no cinema. Por quê? Geralmente, em 98% dos casos (item 06) o roteirista recebe depois de um projeto aprovado – via edital. No entanto, para ele ser aprovado, o roteiro precisa estar pronto. Ou seja: o roteirista escreve sem receber. Tem cachê, mas ele pode vir anos depois.
Na publicidade você também escreve sem receber. Mas o cachê pode demorar dias pra vir, no máximo meses. É muito mais rápido.
Por isso, eu sempre recomendo que o roteirista comece pelo começo, sem querer dar 10 passos de uma vez só. Inicie na publicidade tradicional, faça projetos mais curtos de ficção/documentário, pense em criar um canal no YouTube – exemplos, apenas, para demonstrar que o caminho quando bem traçado pode ser muito promissor.
O número “98%” pode ser exagerado, mas se você fizer uma lista com 100 caminhos para realização de seu filme, possivelmente dois deles (esse é um número grande) mostrarão dinheiro antes da escrita. Ninguém vai colocar dinheiro na mão de uma ideia. Ideia todos têm – o que falta é saber como transformá-la em uma narrativa realmente envolvente.
E agora, vamos falar da mentira?
A mentira é o item cinco. É uma mentira recheada de crítica:
  • A equipe em um set de filmagem sabe ler e interpretar um roteiro.
Olha só…
Nem todos precisam saber ler um roteiro. Um produtor de set, por exemplo, não está na gravação pra mergulhar na história e divagar sobre ela. Ele está lá pra fazer as coisas acontecerem. Porém, se ele tiver a oportunidade de ler o roteiro, melhor ainda. Ele vai saber como falar com os diretores, assistentes e produtores.
Entretanto, alguns profissionais do set, como diretores e equipes assistentes, são obrigados a ler. Eles fazem isso, sem dúvida. Mas nem sempre sabem interpretar. E isso não é responsabilidade apenas de quem lê, mas também de quem escreve. Muitos roteiristas escrevem o que não deveriam, viciando a linguagem errada. Muitos sequer tem uma técnica e um método – escrevem porque têm ideias.
(Ideias não bastam!)
Isso vira um problema bem claro: se o filme já está mal elaborado no roteiro, imagina no restante. Esse ato dá margem para as equipes trabalharem da forma que “acham” que é. O problema é que cada um “acha” de um jeito.
É uma via de mão dupla.
O roteirista deve atuar ao lado da equipe até o final, até o lançamento do filme. E a equipe (que não está muito preparada para isso) precisa querer entender a obra, encarar o roteiro, mergulhar na narrativa. Conheço diversos diretores que não sabem efetivamente interpretar as linhas de um roteiro. Conheço diretores de arte que não fazem ideia de como um roteiro é construído.
Você pode até se perguntar: mas porque um diretor de fotografia precisa saber como um roteiro é construído? Tenho certeza absoluta que se um fotógrafo adentrar nos passos da construção de um personagem (por exemplo) vai entender muito mais como a luz pode influenciar a narrativa, a vida interior do protagonista.
Minha certeza é baseada em um aluno que tenho. É diretor de foto, atua em comerciais de grande porte e tem relatado diversas melhorias no seu processo por conta do aprendizado em roteiro.
Neste ponto entra o nosso papel. Em ordem:
  1. É necessário termos um método de criação.
  2. Precisamos praticar esse métodos.
  3. Saber escrever um roteiro (da ideia à formatação)
  4. Apresentar o roteiro de maneira correta
  5. Ensinar aos outros profissionais sobre a leitura e composição de um roteiro.
Com outros profissionais da equipe sabendo ler e interpretar o roteiro, teremos filmes muito mais consistentes. O roteiro é o pontapé inicial de um filme. E cabe a nós – depois aos outros – batalharmos pela sua importância.

Marcelo Andrighetti é storyteller e idealizador da Escola de Roteiro. Já escreveu para TV, Cinema, Web, entre outras mídias. Desenvolveu três longas, curtas, algumas séries, videoclipes, comerciais, institucionais, entre outros materiais. Além disso, é músico, ou melhor, baixista na banda autoral Krakovia.

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