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Iran Coelho das Neves*

Os que nos prestigiam com sua leitura sabem que a partir da instalação da epidemia de Covid-19, e de sua agudização ainda em lamentável progressão, em lugar de abordagens técnicas ou institucionais relacionadas ao cotidiano do TCE-MS, temos usado com frequência este espaço para refletir sobre uma realidade social e humana que ainda está sendo plasmada pelas urgências, contingências e por crônicos déficits de políticas públicas, desnudados pela maior crise sanitária em mais de um século.
Na nossa modesta opinião, quando, mesmo sob condições operacionais restritivas impostas pela pandemia, o funcionamento de governos, instituições e empresas está assegurado, nossa premência coletiva neste momento deve centrar-se no ser humano.
Se na linha de frente os profissionais de saúde dão mostras de heroica dedicação ao sagrado mister salvar vidas, combatendo inimigo tão agressivo – muitas vezes com meios escassos e reduzida proteção que os expõem ao risco de contágio –, é dever moral de cada indivíduo e responsabilidade social de todos nós honrar o exemplo desses combatentes.
A solidariedade, como observamos no artigo anterior, é a forma mais salutar e generosa de celebrar o estoicismo dos profissionais de saúde e de dignificar a nossa própria condição de seres humanos.
Contudo, a nossa consciência cidadã e a nossa própria condição humana nos impõem, em momento tão crucial, ir além e refletir sobre a precariedade de valores até há pouco tidos como fundamentos irremovíveis, mas que agora se mostram frágeis, quebradiços, diante da realidade trágica imposta pela Covid-19.
Qualquer que seja o “novo normal”, do qual tanto se fala ao se especular sobre o pós-pandemia, tudo leva a crer que, como indivíduos e como sociedade, seremos impelidos à uma revisão ética que, não necessariamente fruto de uma repentina e muitíssimo improvável (r)evolução humana, se imporá como tributo civilizatório pela derrota retumbante – ainda que temporária – diante de inimigo insidioso e planetário.
Acreditamos, sim, que em breve teremos vacinas e remédios eficazes para enfrentar – e derrotar – o novo coronavírus. Porém, a tão esperada vitória final da Ciência sobre o vírus insidioso não anulará a tragédia global expressa em mais de meio milhão de mortos e 10,5 milhões de infectados em todo o mundo, contados até a última quarta-feira, quando se escrevia este artigo.
Ainda que cientistas e governos sustentem, com razão, que jamais se conseguiu desenvolver uma vacina – supondo que os testes em curso comprovem sua eficácia – em tão curto tempo, a amarga constatação de que nem a Ciência nem os governantes estavam preparados para tão desafiadora provação, nos coloca uma angustiante indagação: como reagiremos à próxima pandemia, que segundo especialistas é só uma questão de tempo?
Da perspectiva médico-científica não há, obviamente, uma resposta.
Porém, uma realidade se impõe com a força irrecorrível dos números trágicos da atual epidemia planetária:
A Sociedade Humana como um todo, ou seja, a civilização contemporânea, precisa, a partir da conscientização de indivíduos, segmentos sociais e estados nacionais – e respectivas lideranças políticas, acadêmicas, socioeconômicas e culturais – se dar conta, ainda que pela dor, de que só a redução de desigualdades será capaz de atenuar os danos e horrores de calamidades sanitárias, como atual, e de desastres naturais de repercussão global, para os quais a Ciência nos adverte frequentemente.
Contudo, a redução das desigualdades, tanto entre indivíduos e grupos sociais e étnicos, quanto entre regiões e países, não virá por geração espontânea ou por algum desígnio da Providência.
Ela começa quando cada um de nós, como ser humano, toma consciência de que pode e deve fazer mais por seus semelhantes, por sua comunidade.

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